Hamilton de Castro

09 de June de 2022

Por Itatiaia Memória, 6/9/2022 às 3:03 PM

O companheiro da madrugada

Por 33 anos, na hora das estrelas, as ondas do rádio invadiram a solidão dos ouvintes. Cotidianamente, entre meia noite e quatro horas da manhã, aqueles que acompanharam a Itatiaia tiveram, ao seu lado, o radialista Hamilton de Castro, conhecido como o companheiro da madrugada. Ao sintonizar a emissora, eles já sabiam que, naquele horário, estariam sendo acolhidos por um radialista capaz de transformar o exílio de cada um deles, em uma grande sala de visitas, para troca de ideias.

Hamilton Bernardes de Castro nasceu em Petrópolis, cidade serrana do Rio de Janeiro e estreou no rádio ainda adolescente, aos 14 anos. Em emissoras fluminenses e paulistas, atuou como noticiarista, repórter, radioator e apresentador. Quando desembarcou nas Alterosas, em 1976, para trabalhar na rádio de Minas, propôs a criação de um programa completamente diferente de tudo aquilo que existia até então, e surgiu o “Itatiaia é a Dona da Noite”, que se manteve no ar até 2009.

Para justificar o formato por ele idealizado, formato esse que caminhava na direção oposta do que era ofertado naquele horário em qualquer emissora do país, Hamilton de Castro, mesmo enfrentando muita resistência, lançou mão de um único argumento e acabou convencendo o presidente da Itatiaia, Januário Carneiro, a comprar aquela ideia inédita. O novo programa não teria música! Afinal, segundo Hamilton, música de madrugada só serve mesmo para adormecer o ouvinte. E ele não queria isso. Não era essa a proposta que trazia; pelo contrário, o “Itatiaia é a Dona da Noite” seria um programa de bate papo, de diversão, de entretenimento e muita participação por carta e telefone. Hamilton de Castro provou que estava certo. Existe um universo de pessoas acordadas em plena madrugada, ávidas por companhia. E não são apenas os que trabalham à noite como vigilantes, motoristas, porteiros, mas, também, os notívagos, os deprimidos, os insones, os solitários.

Durante as quatro horas de programa, Hamilton de Castro lia as correspondências que recebia, lançava algum questionamento, opinava sobre um determinado assunto e colocava os ouvintes no ar, utilizando as cinco linhas de telefone que ficavam disponíveis no estúdio. Durante o bate papo, eles falavam sobre suas vidas, opinavam sobre a vida dos outros, davam e recebiam conselhos sobre o que deveriam ou não fazer diante das situações mais diversas. E assim, o tempo passava e o grupo ali, fiel, buscando, na madrugada, um alívio para as suas dores. Sem música, sem notícia, sem produção, sem roteiro, o programa fluía naturalmente, já que era o público quem determinava o tema da noite, que poderia ser casamento, traição, filhos, sexo, procura de um parceiro, ou qualquer outro.

Hamilton de Castro não se limitava em amenizar a solidão dos ouvintes apenas durante o programa. As relações entre eles extrapolavam a Rádio Itatiaia, pois ficavam de fora do circuito estúdio-microfone-rádio. Quatro vezes na semana, o apresentador organizava bailes que eram realizados no período da tarde, em um salão na avenida Olegário Maciel, no centro de Belo Horizonte. Também marcava piqueniques nos fins de semana e, durante os feriados prolongados ou mesmo em suas férias, organizava excursões por diversas cidades de Minas e por outras tantas do Brasil, para que os ouvintes pudessem se conhecer, interagir e estreitar laços de amizade. E de qualquer canto, o programa era transmitido normalmente. Todas essas iniciativas fizeram com que Hamilton de Castro se tornasse padrinho de casamento de mais de 800 casais que se apaixonaram durante os bailes, as viagens, ou nas interações realizadas pelas ondas do rádio.

Em 1980, Hamilton foi surpreendido por uma fã, que o presenteou com um carro zero quilômetro. No cartão, um agradecimento por ajudá-la, todas as noites e durante anos a fio, a vencer as dores da solidão. Aquela mulher jamais se identificou.

Hamilton de Castro se tornou, pois, a referência de seus ouvintes. O confidente com quem se aconselhavam, a voz que oferecia consolo a cada um deles, o ombro amigo que auxiliava na superação dos problemas compartilhados em cada edição, em cada baile, em cada viagem. 

Em 2009, Hamilton de Castro precisou se afastar dos microfones por problemas de saúde e não mais voltou ao “Itatiaia é a Dona da Noite”. Sete anos depois, já distante do seu público, no dia 28 de maio de 2016 ele faleceu, aos 83 anos, em decorrência de insuficiência renal.